“Manifestum est”, ou reflexão desconexa…
1ª Publicação: “Diário de um Detectorista Azarado”, em 29Nov2019.
URL: [RIP] https://eryxblog.wordpress.com/2019/11/29/manifestum-est-ou-reflexao-desconexa/
Nada como alguma confusão, para redescobrir o gosto pela escrita!
Tinha dado o meu amor pela palavra como perdido, depois do problema de saúde que tive no fim de Julho do ano passado, mas eis que o circo que se gerou à volta da reportagem da jornalista Sónia Trigueirão, no Público, acendeu a velinha que eu julgava extinta.
Ainda acordo a meio da noite, a interrogar-me sobre o que terá acontecido naquele dia, mais de um ano depois. E isso deprime a alma de uma pessoa!
E diz o povo que “isso são águas passadas”, mas o povo não diria isso se fosse sob a ponte dele! Não suporto a falta de consciência, que, sendo inata para alguns, para mim é aberrante e uma ferroada persistente.
E o propósito desta entrada no “Diário de um detectorista azarado”, é justamente a introspecção que fiz após a saída da reportagem, e as variadas reacções à mesma. A larga maioria, de apoio, por tentar defender um passatempo. E, é da praxe que haja sempre alguém do contra, uns quantos a tentar que eu fosse comparado a Judas. É sempre bom saber de que lado da barreira está cada um… E o que isso implica…
Visualmente, sou um tipo simples, nada dado a vaidades. Mas não queiram viver dentro da minha cabeça! Isto, cá por dentro, sempre foi muito confuso e atropelado. Especialmente à noite. Quando devia estar mais relaxado, é quando a mente engata a 5ª, e aí vai ela, autoestrada fora… E isso reflete-se no que eu sou. Sou simples, mas complicado como tudo! Sou analítico e ponderado. Se faço algo, é porque entendo que é a coisa correcta de ser feita. E não vi ninguém a dar a cara pela comunidade.
Sabíamos que a reportagem estava a ser elaborada, mas ninguém se manifestou. Quando ela saiu, aí sim, já havia opiniões para todos os gostos. As mais cómicas eram também as mais imbecis…
Já sabíamos que a bomba ia cair á muito. São sempre os mesmos a persistir nos mesmos erros, e por eles, pagamos todos.
São os ambientalistas à bulha com os caçadores, e os arqueólogos connosco.
Decerto que não será com todos, porque tomar a parte pelo todo é um erro crasso. Será quase o mesmo que dizer que, por um membro da classe política ser desprovido de ética, todos o são. Hmmm… É melhor arranjar outro exemplo… Lá por a Maria Leal conseguir causar enxaquecas a uma batata raquítica, não quer dizer que todos os artistas cantem mal.
A nossa comunidade tem as suas Marias Leais, os arqueólogos também terão decerto as suas.
O mais preocupante, do meu ponto de vista, parece-me ser a falta de abertura da parte dos arqueólogos. Apesar da desconfiança, grande parte de nós, os que detectam apenas por lazer, sem segundas intenções, está ansiosa por colaborar. É só deixarem de olhar de lado para um passatempo invulgar, simplesmente porque algumas ovelhas ronhosas gostam de comer a erva onde não devem.
E esta “guerrilha” já vem de longe, pelo que as coisas não mudam de um dia para o outro. Sendo Portugal, normalmente mudam para pior…
Recordo-me da história contada por um senhor, durante um almoço de convívio (boa comida, boa pinga, boa gente), em que, há já uns anos, ao andar num monte com o seu detector, encontrou um túmulo. Daqueles cavados na rocha, como eu gosto de chamar, tipo manjedoura.
Ciente de que aquela zona não estava referenciada como tendo vestígios de ocupação humana, fez uma rápida pesquisa. E, efectivamente, para a História, aquele “buraco” na rocha não existia.
Alertou o então IPPAR, dando a localização exacta do local, para, como resposta, ser admoestado!!!
Os arqueólogos querem (e devem!) estudar esses locais, mas, em simultâneo, parece que não querem que se descubram mais!
Porquê? Já são locais a mais?
Será por isso que as entidades que deviam de zelar pelo Património fecham os olhos quando vilas, pontes e zonas de ocupação são terraplanadas para plantar amendoeiras e oliveiras? Será legítimo trocar a História por um saquinho de amêndoas e dois garrafões de azeite?
Algo vai mal. E enquanto o pessoal não se entender, vai continuar mal.
E os nossos governos, que tanto alarido fazem, quando falam sobre políticas de sucesso, como a do combate à toxicodependência, graças a filosofias inovadoras, optam por medidas medievais, mais dignas de um estado ditatorial.
Vejamos o caso do PAS inglês. (Para quem não sabe, e em poucas palavras, é um projecto em que arqueólogos e detectoristas colaboram.)
Acabaram com os saqueadores? Não! Sejamos honestos. Mas o seu número reduziu-se drasticamente! Lá, como cá, os detectoristas dignos desse título, têm gosto em colaborar com membros de outras áreas. E tenho visto isso ao longo dos anos. Quantos estudos e publicações portuguesas foram feitos com o modesto contributo dos detectoristas? Talvez muitos estudiosos da nossa história não se apercebam que algumas obras de referência que consultam e veneram, foram “engrossadas” com o contributo voluntário e desinteressado de muitos detectoristas.
Lá (Reino Unido), legisla-se. Cá, criminaliza-se.
O mais interessante, é que a Lei que temos (121/99), enquanto estava em projecto, era mais “inteligente”. Mas sabe-se lá que dedinhos gordurosos levaram à aberração que acabou publicada no Diário da República.
A Lei, como está, praticamente que obriga a nossa comunidade a fechar-se do público, escondendo-se em guetos online, onde “estranhos” são vistos com suspeição. E o facto de alguns se sentirem “criminosos” apenas por gostarem de exercer uma actividade lúdica, faz com que uns poucos caiam mesmo na categoria de infractores. Desconfiados, olham para as forças de segurança e arqueólogos como sendo o inimigo…
E, como este passatempo é uma actividade em que se vai aprendendo gradualmente, alguns erros são cometidos no início. As pessoas falam, combinam saídas em convívio, e, por vezes, este ou aquele sugere um sítio interessante para detectar, onde foi encontrado isto ou aquilo. Não querendo dar “parte de fraco” ou por vontade “de agradar”, alguns novatos caem na esparrela.
Tenho visto isso com alguma frequência… Tipos porreiríssimos, que conhecem uma quantidade enorme de detectoristas, mas dos quais as pessoas se vão desligando, e inventando desculpas para não ir detectar com eles. Como se pode ver, a ética na detecção também é uma coisa que se aprende. E a larga maioria sabe-o de cor e salteado. Mas, como disse lá num dos “grupos fechados do Facebook”, em resposta a um “iluminado”, “As pessoas têm que saber que os detectoristas, enquanto comunidade, não são um bando de saqueadores. Na verdade, esses são uma minoria, mas que nos define a todos se ficarmos calados.”
É… A restrição da actividade da detecção pelo comum dos portugueses, por parte de quem elaborou leis dignas da Era das Trevas, interessa a alguns, uma vez que favorece os saqueadores e os que “desviam” as peças. E este submundo para onde a comunidade foi empurrada, fomenta em absoluto alguns negócios menos claros, para não dizer escuros.
Como os achados são publicados em grupos fora do índex, muitos negociantes e coleccionadores são os primeiros a apreciar as peças. E isso leva a que a arqueologia nunca veja a maioria dos achados que são feitos em herdades, campos agrícolas e outros locais distantes de zonas classificadas. E depois, algumas dessas peças são apresentadas ao público em feiras e leilões, como provenientes dali ou de acolá. Mas nunca do sítio onde foram encontradas.
Mas só vende quem interessa vender. E muitas dessas vendas até são absolutamente inocentes! Um tipo tem duas moedas “repetidas”, porque não vender uma? Apesar de eu não vender nada, não vejo grande maleita nisso. Agora, aqueles “grupinhos hardcore”, de meia dúzia de membros… Hmmm… Correm histórias pela comunidade, de negociantes com mais dinheiro no bolso de que aquele que eu hei de ganhar nesta vida.
E é por esses que somos todos taxados de vândalos! E pelas acções de uns quantos membros da comunidade, não esqueçamos…
Portanto, uma Lei que proíbe, é uma lei que é do interesse de quem não a tenciona cumprir.
Claro que, se houvesse abertura por parte do sector da arqueologia, em estreita colaboração com os detectoristas, seriam eles os primeiros a aceder às peças, e, sendo as peças catalogados, mesmo que através de uma simples foto, o tal comércio obscuro ia passar dias difíceis.
Sejamos realistas. Os saqueadores não desapareceriam. Mas os restantes membros da comunidade, tendo noção de que o seu passatempo é relevante para a aprendizagem da nossa história, iriam deixar de se associar a fulano ou sicrano, apenas porque são tipos porreiros. Daí à denúncia, o passo é curto…
E a comunidade, enquanto grupo, peca por ser pouco coesa. A larga maioria defende uma regulamentação, elaborada com o cérebro, e não com os pés, da actividade; e uns quantos, a sua completa liberalização, uma coisa assim um tanto à balda. E depois, há aqueles poucos a quem não faz diferença qual é a Lei….
Como tal, também não temos poder de autorregulação, porque cada um puxa a brasa à sua sardinha.
Eu defendo a detecção enquanto actividade lúdica, em que todos remam para o mesmo lado, deitando borda fora quem insiste noutro sentido.
Teríamos todos muito a ganhar. Nós, com um passatempo regulado, e os arqueólogos, com o acesso aos achados, que acabam agora em colecções privadas, ou desbaratadas pelo e-Bay e leilões, jamais sendo sequer estudadas.
Até que seria interessante fazer um “test-drive” entre a comunidade detectorista e a arqueologia. Em que ambas as partes colaboravam de mente aberta durante um ano. Ao fim de um ano, logo se via. Estou certo que as reservas e feudos que existem de parte a parte seriam eliminados na sua maioria. Claro que continuaria a haver um ou outro que continuaria a ir para onde não deve, mas a falta de ética de alguns, como disse à jornalista, é transversal a todos os grupos, começando logo desde o topo (Governo), afectando inclusive alguns membros da arqueologia.
Voltando ao PAS…
Houve alguém, há uns meses, que disse que este Blog é, em Portugal, o mais parecido com o PAS inglês. Um elogio e peras, ainda por cima, vindo de quem veio!
E eu sou só um! O que aqui está é fruto de muitas horas a enxotar moscas e mosquitos nestes pinhais, ao longo de 5 anos. Multipliquem isto pelos 100 ou 200 detectoristas sérios, em actividade neste país…
Eu mostro o que encontro, sem reservas, e não é para alimentar ego nenhum. E ainda não coloquei mais, porque parece que o tempo não dá para nada! Sou assim, sem máscaras. E tenho colaborado (eu e muitos) com todos os estudiosos ou interessados nesta ou naquela disciplina. Dou de graça os dados daquilo que encontro, excepto as localizações GPS dos achados. Esses são para a minha demanda pelos trilhos ancestrais, e também para salvaguarda.
Fiquei devastado com a parte do artigo em que a jornalista diz que “Também participo num grupo onde está um arqueólogo que me ajuda a identificar as peças“. E só diz isso! Parece passar a ideia de que ele está lá apenas para identificar peças! Senti que o truncar do que eu disse foi uma ofensa a esse arqueólogo! Transcrevendo os trechos das gravações que a app do telemóvel fez, o que eu disse foi: “E ele identifica-nos os achados. Nós colaboramos com ele. “Olha, encontrei isto e não sei o quê”. E ele dá-nos verdadeiras aulas de história. Aprendemos todos uns com os outros.” E, já para o fim: “Eu, por acaso, o arqueólogo que eu conheço. É um tipo novo, cinco estrelas. Uma pessoa… é… ele tem uma mente aberta. Ele tem gosto por aprender e por ensinar.”
O que soa um bocado diferente do que surgiu no artigo, não é?
Se a maioria dos arqueólogos tivesse a audácia dele, a arqueologia em Portugal teria uma época dourada.
Mas não nos iludamos… Continuaria a haver problemas. A actividade mercenária de uns poucos não desapareceria. Mas, como disse acima, tendo acesso em primeira mão aos achados, a arqueologia tornava-se uma espinha na garganta dos que tentam ganhar dinheiro com a nossa história.
Mas há vontade de mudar? Os próximos tempos o dirão…
(Se me ocorrer mais alguma coisa, depois acrescento.)
Um abraço a todos, e boas saídas!
