Sinopse
Ano de 2003. Foi um bom ano para, interiormente, tentar obter algumas respostas. Algumas viram a luz do dia, como este Tratado, que, para não variar, não está acabado. O tema da questão era sobre os fundamentos do ritual mágico. Aqui fica o que nasceu dessa introspecção.
Tratado sobre o estado de tensão mental e as artes mágicas
O acto mágico é a expressão dos desejos do adepto das artes mágicas e os seus efeitos são consequência do estado psicológico do oficiante, potenciado pelos objectos envolvidos no ritual e o seu valor para o mesmo, pelo ambiente do local, pelo desenrolar do acto mágico e pela crença do oficiante na eficácia do seu trabalho.
Da preparação do oficiante para o ritual mágico
O oficiante terá que dar valor simbólico e factual aos objectos, actos e palavras envolvidos no ritual para que a sua crença na eficácia dos mesmos seja completa. Mas terão de ser todos usados no momento apropriado!
É importante o envolvimento do oficiante na arte de confecção dos seus objectos rituais, com os quais cria um vínculo de espiritualidade e fé, onde exprime os seus objectivos, fortalecendo-os e fortalecendo-se, até que os mesmos sejam parte do oficiante e uma extensão do mesmo. O sacrifício efectuado para os obter ou manufacturar ainda aumenta mais o seu valor perante os olhos do oficiante, uma vez que o sentimento de sacrifício está relacionado com a temática da fé. Uma caminhada ou peregrinação para a obtenção de determinadas plantas, minerais ou outras coisas relacionadas com as actividades mágicas do oficiante, vai conferir-lhes um valor diferente daqueles que são adquiridos numa loja ou numa viagem de automóvel, em que tudo está facilitado, mas onde não se cria uma aura de sacrifício e fé em relação aos mesmos.
Os objectos usados durante os rituais terão de ser todos consagrados ao fim a que se destinam antes do seu uso, e o seu objectivo não deverá ser alterado. A cada ritual, os objectos envolvidos no mesmo acumularão energia positiva ou negativa, conforme o tipo de ritual, pelo que não é conveniente usar os mesmos objectos em rituais de magia branca, vermelha e negra. Para cada tipo de ritual, o oficiante terá de possuir objectos para os mesmos. O queimador de incenso usado num ritual de magia branca não poderá ser usado num ritual de magia negra, uma vez que tem acumulada uma carga contrária ao objectivo pretendido, podendo atenuar ou anular os efeitos do mesmo.
Os actos e a sua sequência terão de ser previamente ensaiados para que o oficiante crie e mantenha a sua fé nos mesmos, tendo essa fé de ser natural e além da dúvida. A crença do praticante das artes mágicas durante os seus actos rituais é importantíssima, pois sem ela dificilmente alcançará coisa alguma.
O mesmo se aplica para as palavras, que deverão ser bem ponderadas, tendo de ser bem escolhidas, direccionadas única e exclusivamente para o objectivo em mente no ritual.
Sobre o estado de tensão mental
Nos rituais de magia negra, os ambientes negativos propiciam a que o trabalho seja mais eficaz, uma vez que, estando o oficiante exposto a um local assustador ou associado a eventos trágicos, isso vai induzir nele um estado alterado que deriva do medo e da situação de alerta mental que advém do mesmo. A tensão criada fornece a força necessária para a materialização do objectivo do ritual. Cabe ao oficiante direccionar a força gerada por essa tensão para atingir os seus objectivos.
É por isso que nas sessões espíritas, a forma mais rudimentar do trabalho mágico, se recorre com frequência à presença de mulheres ou crianças, que, sendo mais imaginativas, atingem mais rapidamente e com maior facilidade o estado de tensão mental pretendido, contribuindo muitas vezes indirectamente para que os eventos possam ocorrer. Eventos esses que são materializados pela parte mais escondida da psique, que emerge durante esses estados de tensão, em que se alcança um patamar mais primordial, povoado de forças puras e imaginativas.
A mente oculta/imaginativa executa e a mente Eu/Consciente dá as directrizes, apesar de não controlar os eventos. O oficiante invoca forças muito especificas, mas não controla o que vem depois. Daí a existência do círculo nos rituais, cujo interior simboliza a área em que o oficiante exerce o seu domínio. O interior do círculo onde o oficiante se encontra representa o Eu/consciente que pretende controlar o exterior e, simultaneamente, proteger-se do mesmo, especialmente das consequências indesejáveis dos actos mágicos por ele executados. O que está fora do círculo é resultado daquilo que é exercido no seu interior. O exterior pode ser direccionado, sugerido ou seduzido, mas nunca completamente controlado.
O estado de tensão mental, aliado à fé do oficiante nos seus objectos, actos, palavras e objectivos são os dois grandes impulsionadores do sucesso do ritual.
A tensão mental pode ser alcançada se o oficiante se colocar perante situações negativas, que o coloquem tenso, frustrado/enraivecido, que incutam nele um desejo intenso, ao qual cabe ao oficiante dar corpo durante o ritual.
A fé do oficiante pode ser gerada pelo sacrifício do mesmo em relação a todas as coisas implicadas nos rituais por ele praticados. Sessões de auto-sugestão ou de hipnose poderão incutir no oficiante uma fé inabalável nas suas capacidades e na eficácia dos rituais a fazer. A leitura ou audição de histórias populares relacionadas com o imaginário colectivo também é importante para reforçar a crença do praticante de magia, uma vez que o mesmo cria a certeza de que se já aconteceu a outros, porque não também a ele.
Sobre as contradições
Nos trabalhos rituais são de evitar as contradições, quer simbólicas, quer factuais. As coisas existem por si e não por consequência ou vontade dos seus opostos. Mas dependem deles para validar a sua existência. Tal como o dia se justifica com a noite, o conceito de bem só se compreende quando comparado com o seu contrário. Não invocar Deus quando se pretende a presença do Demónio! O chamamento de um para convidar o outro leva a que se obtenha a soma das duas partes, um equilíbrio no qual o oficiante se encontrava previamente, no dia a dia, na sua vida social. Nada acontecerá!
Os Tratados de artes mágicas nos quais se pede a Deus ou aos anjos para que ordenem ao Demónio ou demónios que os mesmos compareçam perante o oficiante não são mais que produto de uma cultura predominantemente cristã, em que as suas divindades estavam colocadas acima de tudo o que é terreno e humano. Os antigos praticantes das artes mágicas obtinham resultados com esta fórmula porque acreditavam cegamente nela. Isso gerou um desequilíbrio entre os conceitos de bem e do mal, onde se radicalizou ao extremo a supremacia de um oposto sobre o outro. Aquele que pede com fervor a interferência de Deus ou dos seus inúmeros Santos nos seus problemas provavelmente obterá uma resposta de acordo com a lógica cristã, talvez um milagre. O contrário também é verdadeiro!
Os opostos são inter-dependentes mas não controlam a esfera antagónica que lhes justifica a sua permanência na relação de equilíbrio que emerge da contradição de um com o outro. As partes opostas de um facto ou teoria formam um todo, não tendo necessariamente que haver uma proporção equalitária de ambas, ou a predominância de uma delas. Pode-se invocar qualquer uma das duas conforme as necessidades do momento, sem no entanto ceder a qualquer uma delas.
