Sinopse
Este exercício de empatia com a mente de um sociopata, confesso, assusta-me!
Corria o maravilhoso ano de 1997, no Funchal, Ilha da Madeira, quando tive a “brilhante” ideia de criar uma história, ou conto, em que o personagem central seria um verdadeiro sociopata.
Já não me recordo com clareza qual seria o enredo, mas comecei a tentar colocar-me na pele de um sociopata, dando corpo aos demónios que povoavam muitos dos meus poemas. Tenho que admitir que este personagem também tem um pouco de mim, mas o grosso das palavras são apenas o levar as coisas ao extremo, bem além do ponto de rutura.
O que se segue seriam as entradas num suposto diário deste personagem negro, intercaladas com o fluxo da história.
Desisti do trabalho depois de umas quantas “entradas”. Talvez por falta de tempo, ou talvez tenha ficado perturbado com o que já tinha escrito. Mas a verdade é que, agora, ao ler o que escrevi na altura, e ao ver-me em alguns parágrafos, compreendo o porquê de me divorciar do projecto.
Hoje, ao passar estes textos para o Word, optei por exercer alguma auto-censura no que se segue. Mesmo para o que seria uma história de terror/thriler/mistério, os textos originais são muito mais violentos e malévolos do que o que se poderia esperar para os géneros. Como estou a escrever a sinopse depois de “trabalhar” o que abaixo está, posso informar que cortei frases e parágrafos inteiros, substituindo-os por “…”. E não me arrependo!
Fiquei com a certeza de que, quando deixo a mente divagar e criar, posso dar à luz coisas doentias…
Alma Livre
(Estudo sobre a sociopatia)
“Em busca da luz”
Por vezes gostaria de saber o que sou eu na realidade. De entrar numa sala que contivesse todas as verdades acerca da minha pessoa e me visse espelhado em toda a sua decoração, de modo nu e objectivo. O que serei? O que serei eu na verdade? Questões que me assaltam com a frequência do respirar. Mas, quando me descontraio na reflexão profunda acerca da minha existência, durante os meus regulares acessos de solidão, apenas descubro paradoxos e coisas incompatíveis com aquilo que se define de sanidade.
Como explicar o amor fundido com raiva descontrolada e ódio alucinante? O desejo puro e inocente com o vermelho do sangue? Quando menciono sangue, refiro-me à ideia obsessiva de morte, pela minha e pela que desejo oferecer. Tudo crimes que as pessoas, as comuns e ignorantes pessoas, achariam decerto hediondas e provenientes de uma mente doentia. Mas para mim são naturais, sublimes, puras. São a droga que me dá vida e me faz sentir como tal. O sangue, sendo um líquido precioso e não muito abundante, é natural que lhe dê o devido valor. Mas até que ponto o valor que cada um dá ao sangue é saudável? Vou ver se descubro isso recorrendo apenas à minha vigilância.
…
Como explicar isto? E, no meio disto, surge um olhar nada amigável e um sorriso pouco próprio para ser ostentado, mas que são o espelho da minha alma neste momento.
O que sou eu e o que tenho a temer? A Morte, essa não a temo porque, apesar de ser a ameaçadora companhia ao longo de toda a vida, é natural, e tento conjecturar maneiras de a contornar, sem no entanto deixar de Lhe estender a mão. Por enquanto, sou eu quem sonha com a Morte, mas chegará o dia em que será Ela a sonhar comigo. Doces sonhos que trocamos num bailado frenético. Mas não a vejo. Sinto-a rondar, não apenas a minha aura, mas também a de muita, muita gente, tocando os nossos espíritos com os seus dedos gélidos e intemporais. Mas suponho que são poucos os que a pressentem, com a sua negra foice, pairando ameaçadoramente sobre as nossas cabeças, e procuro constantemente o seu toque gelado nos olhos das pessoas que por aí vejo deambular. Mas são poucos os que nascem com a morte no coração, e, para além de mim, apenas encontrei outra alma torturada como a minha, em busca de liberdade.
Serei louco? Um louco perigoso e dissimulado, que se guarda sob uma máscara subtil, formulando continuamente novas estratégias? Bem, a subtileza nunca foi o meu ponto forte e não me recordo de fazer concessões à gentileza. Não me envergonho ou arrependo de tal, apenas tenho de ser eu mesmo, franco para mim próprio e para o mundo. Mas o mundo aceita isso? Jamais! E depois vêm as críticas. Afinal, hoje em dia a franqueza tende a ser interpretada como má educação. E isto porque não sigo regras mesquinhas, como as que a sociedade criou. Se me querem chamar de louco, que o façam! Há quem acredite que o sou e afirme que tenho um parafuso a menos. Isso é uma barbaridade! A verdade é que são uns quatro ou cinco. Mas isso fará de mim um dos muitos maluquinhos que veem passar o tempo e as suas estações pelas grades de um sanatório, daqueles que todas as “pessoas de bem” sentem piedade? Que se lixem as pessoas com as suas concepções do bem e do mal. Para mim isso não existe. São coisas que não se definem. Vejo o bem e o mal como sendo dois semi-círculos que se unem para formar um único círculo fechado. Qual é qual e quando é tal? Eis uma boa questão para os loucos de Deus! Abomino a Sociedade e fazem-me louco? Pois então que o façam! Que me importa? Há já muito tempo que sou surdo para a sua voz, e as suas práticas nada me dizem.
…
Para descortinar a minha loucura (?), teria de possuir uma definição clara de loucura, o que não é o meu caso e, em abono da verdade, duvido que seja o de alguém. Talvez eu seja apenas uma pessoa demasiado lúcida, isto é, consciente de si e sequiosa de respostas. Enfim, um verdadeiro egoísta! Mas, se o que afirmei nas últimas linhas fosse verdade, não haveria necessidade de passar para o papel estes meus pensamentos secretos. Por outro lado, a lucidez já levou muito boa gente para a fogueira, depreendendo-se daí que a lucidez também é uma forma de loucura, pelo menos para a Sociedade, a Censora Mor, a quem a novidade assusta e irrita. A verdade torna-se uma abominação numa cega visão social como a que actualmente vigora. É prudente ficar calado, agindo apenas na sombra. Mas isso nem sempre é conseguido. Não será, portanto, de admirar que a minha existência, e a de muitos outros com eu, horrorize muita gente.
…
Isso faz-me mais forte do que as suas vãs barreiras. E, em jeito de comentário, tudo isto é muito bom para o meu ego que, vaidoso, agradece a atenção dada.
…
Aos olhos do mundo posso ser um louco, mas sou eu quem tem a última palavra sobre esse assunto.
“Mais um pouco de mim”
E aqui regresso uma vez mais, bem mais cedo do que seria esperado. Mas as emoções fluem descontroladas e é necessário que as capture para a caneta para que não se percam e se tornem fugazes no meu firmamento. Afinal, quem deseja perder um pouco de si para a obscuridão da ignorância? Muitos o fazem, mas eu nego-me a deixar que isso me aconteça.
Não faço a mínima tensão de abafar os meus defeitos e ressaltar as minhas virtudes, sob o tendencioso foco da imaginação e da vaidade. Sou demasiado Eu para que isso aconteça! Penso apenas em ser o espelho imparcial do meu caos interior. A aventura suprema, a alegria, o terror, o poder… Tudo isso está dentro de todas as pessoas. É um dom! Mas quantos o esquecem…
Eu, que me sinto excitado de forma demente pelo calor da violência nua e crua, despida de toda a censura, que renasci na dor da exclusão e bebi o amargo licor dos párias, descobri a vida e o êxtase nas cenas de fome em países subdesenvolvidos, nos massacres étnicos, no assassínio e na violação. É a realização de um sonho reprimido! É Vida! É controle! É o desejo de ser mais, de participar!
…
Morte e sangue… Lá vem tudo de novo. Desde criança que são temas que me fascinam. Foi um tormento que me assombrou ao longo de uma parte da minha existência, até que surgiu a oportunidade de trazer esses fantasmas para a realidade. Agora são a minha vida, a razão de eu ser o que sou! Sou Eu! Nada me pode afastar da Morte, que é a minha musa e cuja obra já vislumbrei inúmeras vezes. E, por mais que a veja, nunca será o suficiente. Apenas conhecendo a Morte, a poderei derrotar. Quero vencer o obstáculo que leva todos os mortais para o esquecimento. Por isso o sangue é o meu alimento e resume-se apenas ao desejo de entrar na Morte e destila-la para obter a eternidade, o conhecimento que só a imortalidade pode desvendar. Na Idade Média, apenas por este parágrafo, já teria um lugar certo na fogueira. Hoje a fogueira é outra, mas o fogo é o mesmo.
Sou filosofo, sou poeta, sou eu… Uma espécie de selvagem que ama a terra dos seus primórdios, que se sente em casa no passado anterior à Ordem, esse tempo glorioso que reconhece e nunca viu. Uma besta que nasceu na Civilização e que quer regressar à Selva. Um deslocado. Um alienado numa multidão de idiotas.
Vejo a realidade com os mesmos olhos que durante o sono vislumbram os sonhos. Tudo está desfocado e o real mais se assemelha a um teatro barato, sem começo nem fim, com um pobre cenário desprovido de personagens vivas e conscientes disso. Por isso, gostaria que o passado fosse o meu presente e o futuro, a minha cruzada interminável. Basta que a minha consciência, apetrechada da memória, vogue por aí em busca de conhecimento. Mas o corpo físico atrapalha essa missão.
Sou sonhador! Sim, não o posso negar. Mas não acredito que as minhas ideias sejam impossíveis de ser concretizadas. Parafraseando o que habitualmente digo: “Nada é impossível! Mas há coisas que simplesmente não acontecem.”. Mas como ser um sonhador puro, com todas as regras e leis insanas que o Homem criou para reger o mundo? Estou confinado a uma cave escura e húmida e os carrascos negam-me a Luz. Tenho de agir…
“Os lobos de Deus”
Hoje vou abrir um pouco mais os portões do Inferno, e libertar mais alguns demónios, que, ansiosos, aguardam a liberdade. São demónios meus, é claro, mas demónios, apesar de tudo. Já nasceram comigo ou foram-me “oferecidos” na infância? Não sei e algumas coisas ainda não estão perfeitamente claras para mim. A culpa será deste invólucro humano a que estou preso, mas a instigadora dessa culpa não ficará impune. Falo, é lógico, da Mãe da Ignorância. Do imenso Mundo da Presa.
A Sociedade de hoje é o produto final de um processo pútrido em que a Igreja e demais cultos da estupidez injectaram no seio de todas as civilizações ditas civilizadas o verme da sua moral. Cada uma com a sua história, mas tudo histórias iguais, tendo por essência a anulação da personalidade. Moral? Quem lhes deu o poder de decidir o que é moral ou não? E, quando aliada á religião, esta palavra torna-se sinónimo de repressão. Não foi a Igreja quem torturou e queimou todos aqueles milhares de inocentes, apenas porque Deus não era o centro das suas vidas, e que, também por vezes, possuíam propriedades e capital que os Portadores da Palavra invejavam e reclamavam para si? “Amarás Deus com todas as tuas forças. Ou então podes escolher uma morte dolorosa.” Que Deus é este? Que tipo de homens o serviu e serve? Nos últimos tempos tem vindo à superfície um universo de sedução de menores entre estes Doutos Senhores que pregam uma palavra na qual já ninguém acredita. Como podem eles sequer ter o direito de estar vivos? Não sou a melhor pessoa à face da Terra, mas nunca faria mal algum a uma criança. Contudo, eles conseguem-no e, aparentemente, continuam tranquilos de espírito. Como conseguem ser tão canalhas?
A Igreja sempre foi e será uma instituição podre e corrupta, constituída por Senhores de ideias que de tão ultrapassadas, nem ao Diabo passam pela cabeça. É um antro de mentiras. Não são as suas freiras, que de tão santas, abortam em segredo? E os seus padres, tão sábios e bondosos, que se aproveitam de crianças e mulheres enfraquecidas pela crença com as quais mantêm relações? Não me falem em pecado. Foram eles que o inventaram para controlar o mundo!
De tudo aquilo que a Igreja possui, nada é seu. Propriedades arrancadas com pouca subtileza aos ignorantes e sacrificados a deuses mais poderosos, o dinheiro e a ganância. Até os rituais por eles praticados, que dizem vir de Cristo, são mais antigos que um idiota ao qual eles beijam o traseiro de tanta reverência e amor. Quanta falsidade! A hóstia já existia, assim como a cruz, o altar, o sacerdote, o templo de adoração e o Salvador. Tudo coisas roubadas! E os religiosos coram de raiva ao ouvir estas coisas, ameaçando com a excomunhão: “É mentira! Blasfémia!“. Tolos que almejam um pouco mais de ignorância. Com que então a Terra era o centro do sistema solar (quantos morreram pela verdade?) e o Homem descendia de Adão e Eva, que, sem serem gerados no ventre, tinham umbigo! E depois, mais recentemente, temos o preservativo, a pílula, o aborto e outras coisas menores. Como podem as pessoas ser tão cegas?
Sempre fui e serei contra a Igreja, os seus asseclas e a Sociedade, com os seus “grupinhos” que são sempre uma imitação irreal de uma verdade à muito perdida e que jamais foi recuperada. Por isso luto do lado contrário. A maioria nem sempre tem razão, podendo inclusive, colocar-se em dúvida a validade da própria razão. E o orgasmo mistura-se com Améns e orações. Há demasiada corrupção!
“Acolhedoras Trevas”
Onde estão os meus ídolos? Vlad Drakul, Adolf Hitler, Ivan, O Terrível… Onde estão esses grandes homens, que gravaram o seu nome na história com dor e sangue? Homens que canalizaram os seus instintos de predador para o sadismo, sob a capa do líder que purifica o impuro. A crueldade é ascensão! Só a morte violenta e agonizante faz sentido.
Oh, como a Humanidade os teme, mesmo depois de mortos. Os apelidos de Sanguinário, Assassino, Diabólico e ditador, ao invés de os reduzir a meras sombras dos seus actos, apenas os glorifica e eleva acima dos homens que se arrastam, beijando os ícones da sua estúpida fé.
O Homem, que os fez Deuses, torna-se o seu pedestal. Deuses pelas suas mãos e pelos seus actos. Deuses pelos milhões que foram esventrados e queimados sob o signo da ascensão do Homem á pureza e perfeição. E terá a Humanidade compreendido os seus objectivos? Jamais! Tais actos e os seus motivos continuam obscuros para as massas que se movem em turbilhão em redor de falsas verdades. O mundo revela-se um paradoxo. O Homem quer viver! Como estes Deuses devem gargalhar dos alucinados que povoam este chão, outrora vermelho pelo sangue derramado dos seus antepassados. Sintam! Cheirem o derramado sangue que corre em cascata, o odor da carne queimada, que purificada, apodrece. Vejam, sucumbam ante a dor da infantil virgindade que com desprezo é roubada pelo conquistador, pelo trespassar da estaca romba, pelas câmaras de gás, pelas valas comuns…
Tolos! Eu gargalho de vós em coro com esses homens que se fizeram Deuses. Idiotas! Quando se aperceberem de que apenas nasceram para servir, já serão escravos. Vermes nojentos que rastejam e se humilham por dinheiro, perecendo num sistema utópico em que a sua funcionalidade é a prova da sua incompetência. Religião, moral, regras, sociedades em que se julgam senhores e mestres daquilo que não passa de ignorância colectiva. E julgam-se espertos, até geniais! Não almejem a liberdade. É tarde de mais.
Uma vez mais eu gargalho em coro com os vossos choros desesperados e vos cuspo na cara a minha aversão. Quando abrirão os olhos para aprender que apenas existem para saciar predadores como os Deuses? Que apenas são matéria-prima para ser moldada em tormento pelas mortíferas mãos dos verdadeiros arquitectos da história? Quão insignificantes são! Agarrados a um Deus que nunca ninguém viu, a um falso Deus que prega salvação. Adoradores que vêm carne onde apenas existe ar!
Os Deuses deixaram a marca indelével da sua presença nas vossas mentes. Podem enterrar as suas passadas, mas não as podem olvidar. Sintam-nas! Esqueceram os massacres, os autos de fé, as chacinas, o fogo e a estaca? Esqueceram a cor do sangue e a dor pura? Relembrem esse passado glorioso, sedento de regresso, e conheçam o vosso futuro.
…
“E o Demónio foi criado…”
De todos os homens, o único a ser verdadeiramente livre é o assassino sem remorsos que vive além das barreiras da Sociedade e das imposições morais. É aquele que é consciente de si e conhecedor dos seus desejos, que, pela sua vontade, são puxados para a realidade. A sua consciência e a sua vontade vêm da sua condição de solitário, que lhe permitiu a iluminação espiritual e a amadurecimento das suas certezas. Há sabedoria no pessoal e não no social, no Eu e nunca no Nós.
Esse assassino vive acima das vulgares pessoas, nos seus pesadelos, na sombra, na dor e na violência. É um espectro oculto, à espera. É o Mensageiro da Morte. E foi o medo da mesma, da incerteza e do desespero perante ela que levou a humanidade a agrupar-se e a criar leis que as protegesse do desconhecido e atrasasse o inevitável desfecho. Dessa comunhão nasceu uma segurança insegura, que adormecia as grandes crianças e as fazia felizes, sendo brutalmente despertadas pela constatação de que alguns não se haviam submetido à apatia social e que viviam segundo as suas próprias leis. E temiam a sua vinda. Nasciam assim os demónios! Os mais ferozes de entre eles tornaram-se deuses malditos, ícones do terror e da morte, provas vivas da fraqueza dos amedrontados mortais que viam neles uma lembrança perpétua de que a união não era sinónimo de força e de que as suas infantis leis degeneravam continuamente no Caos, que é a verdadeira criação. Mas os fracos preferiram ficar cegos perante esse Caos, trabalhando afanosamente como as formigas para resgatar a sua fictícia segurança, não compreendendo que o Caos é a oportunidade para a renovação, para o continuar. A Ordem afectou a continuidade e estagnou a evolução.
