Saída 2016Ago07 e 09
A carteira enterrada, ”Ó Dona Isolina, quer ver os meus tomates” e ”Olha! É o senhor Joaquim da loja!”.
1ª Publicação: “Diário de um Detectorista Azarado”, em 10Ago2016.
URL: [RIP] https://eryxblog.wordpress.com/2016/08/10/saida-2016ago07-e-09-a-carteira-enterrada-o-dona-isolina-quer-ver-os-meus-tomates-e-olha-e-o-senhor-joaquim-da-loja/
Saída 2016Ago07 – A carteira enterrada e “Ó Dona Isolina, quer ver os meus tomates?”.
Após o fim do treino da minha senhora, havia ficado combinado que ela iria ter comigo para dar um pouco de uso ao EuroAce, que está num canto a acumular pó. Mas chegou tarde como tudo e acabou por ficar para outro dia. Neste intervalo de tempo, lá catei umas coisitas. Nada de muito interessante, diga-se de passagem… O mais bizarro foi um sinal fraquito na escala. Provavelmente seria lixo, mas nada como tirar as dúvidas. A uns 10 cm de profundidade, o ProPointer acusava algo debaixo do que me parecia ser um pedaço de raiz de pinheiro. Forçando um pouco, a raiz revelou-se muito “solta”. Agarro e puxo, ficando com o que me pareceu um pedaço de plástico na mão. “Olha, olha.”. E olhei. Com atenção. Estava dobrada ao meio, mas era uma carteira de senhora. “Interessante.”. Nem por isso. Quem perde uma carteira, não a dobra ao meio e enfia dentro de um buraco. Pareceu-me mais que evidente estar perante os despojos de um crime hediondo cometido sabe-se lá por que nefando meliante. Saco do telemóvel e tiro algumas fotos antes de proceder a uma inspecção cuidadosa do conteúdo. Conseguiam-se ver uns quantos cartões num dos lados. Mas era basicamente o que havia. Uns quantos cartões inúteis e papelitos colados pela humidade. Num dos compartimentos, um pedaço de calendário com “2005”. 11 anos atrás, portanto.
Bem, chega a minha senhora e vamos almoçar.
Numa pesquisa rápida no Google, o primeiro nome nos parcos documentos revela-se infrutífero. Pudera! Olhando para a data de nascimento, vejo que a senhora havia nascido em 1929. O mais provável seria que a mesma já não andasse cá entre os vivos.
Concentro-me no segundo nome e tenho logo um hit. Uma loja numa rua que conheço muito bem está registada no nome dessa segunda senhora. Ligo para o número de telefone e recebo a indicação de que número já não é válido. Hmmm…
Procuro nas Páginas Amarelas. Usando apenas o primeiro e último nomes, vasculho nos resultados as entradas com me apresentem os restantes nomes. Há um que se destaca logo. Pela morada, vejo que já detectei a menos de 200 metros daquela casa. Mas a carteira estava a mais de 1 km dali. Telefono e, milagre. Dei logo com a senhora. Depois de explicada a razão do meu telefonema e as circunstâncias do achado, fiquei de lhe entregar os restos daquilo que fora uma carteira. A senhora nunca havia sabido se tinha perdido a carteira ou se lha tinham roubado. Acho que agora já sabe. O primeiro nome que eu havia pesquisado era o da sua mãe, entretanto falecida.
Adiante.
Da parte da tarde, como estava muito calor, as minhas senhoras optaram por ficar em casa a vegetar à sombra. “Ohhh… Lá estás tu a estragar os meus planos de dominação do mundo. Acho que vou para o pinhal fazer a fotosíntese. Aproveito e levo também o detector… Hmmm… Onde é que está a garrafa vazia da Coca-Cola? Para quê? Para levar água, é claro. 2 litros são melhores que 1 litro e meio.”
O termómetro do carro marcava 37,5. Frescote, se estivermos perto de um vulcão em erupção. Mas não estava… Ainda ia a meio do caminho e já minha língua ia tão de fora que pensei em lamber os mamilos para os refrescar. Mas a língua não chega lá. E se chegasse? Onde é que eu vou buscar estas coisas???
Voltando para a zona onde havia estado de manhã, lá continuaram a sair umas coisecas. Um anel meio amassado, uma medalhita, um ceitil partido ao meio, cujas metades estavam a um palmo uma da outra, mais um ceitil, uma fivela engraçada e outras coisas sem muito interesse. E, de súbito, andando a direito e em meia dúzia de passos, X Réis de D. João V, datados de 1713, um Real Preto de D. Duarte e o fragmento daquilo que havia sido um Dinheiro. Animado, passei a zona a pente fino. Mas sem qualquer resultado. Subo a encosta e encontro-me perante 3 tomateiros a crescer em pleno pinhal. A saúde deles não era a melhor. Sem água e permanentemente à chapa do Sol, eram a imagem dos genitais de um idoso de 90 e muitos anos… Mas tinham lá uns tamatitos vermelhuscos. Apanhei uns quantos para a minha senhora pôr na salada. Tomates num saco e saco para a mochila.
Regresso a casa e, mais tarde, já de visita aos meus sogros, pergunto à minha sogra: “Ó Dona Isolina, quer ver os meus tomates?”. Como ela usa aparelho auditivo, pensou estar a ouvir mal, porque o que ela pensava estar a ouvir era algo que não acreditava que eu lhe dissesse. Depois de repetir a questão mais umas vezes, lá lhe mostrei a foto que tinha tirado aos tomates lá no monte. E lá tive que explicar como me tinha apossado daqueles tomatecos…
Aqui ficam as fotos…

Saída 2016Ago09 – “Olha! É o senhor Joaquim da loja!”.
Depois do almoço, como as madames ainda acham que está muito calor para o que quer que seja, lá tenho que me conformar com mais uma saída.
Pego na tralha e no saco onde havia colocado a carteira encontrada no Domingo e lá vou eu. Chego perto da residência da senhora e ligo-lhe. Depois de umas voltas, lá dei com ela. Olho para ela e verifiquei que a cara não me era estranha. Reconto a história de como encontrei a carteira e depois de ouvir o que provavelmente se terá passado para a carteira aparecer tão distante do local de onde ela deu pela sua falta (perca/roubo), lá lha entreguei tal como a encontrei, com terra, raízes e os parcos documentos e papelitos.
Eis que surge o esposo. “Olha! É o senhor Joaquim da loja!”, pensei eu. Ele tinha uma pequena mercearia no rés-do-chão de um edifício onde mora um dos meus dois grandes amigalhaços justamente no 1º andar. Devo ter ido àquela mercearia dezenas de vezes entre os meus 16 e 20 e tal anos. Ele também me reconheceu logo. “Tu és o que costumava andar com o filho do Guarda Miguel. Tens visto o Luis?”. “Ainda à duas semanas estivemos todos juntos à noite lá em baixo. Mas isto agora de Verão tem muita gente e confusão para andar por lá com a pequenita.”, respondi.
Mais um pouco de conversa e depois de efusivos agradecimentos da parte da senhora, lá parti em mais uma demanda detectorista. Mas soube-me bem ter cumprido o dever de restituir a carteira, que, mesmo muito desfalcada do conteúdo original (mais documentos, 80 euricos e um brinco de ouro), foi bem recebida pela dona.
Adiante…
Andando à toa, lá fui tirando uma coisita aqui e outra acolá. Fiquei surpreendido pelo alfinete. Parece-me muito curto para tal, mas também havia crianças na altura em que o perderam. Mais um item mistério, que cogitei se não seria a parte metálica de uma faca que é cravada no punho. A protuberância com o furo é comum com a dos chocalhos (Crotal bell) de corpo inteiro que tenho apanhado, mas daí para a frente a coisa fica desenquadrada.
Lá saíram mais III Reais de D. João III a dar para o esbatido e, batendo cuidadosamente uma zona que já foi deveras produtiva, lá saquei mais um dinheirito e metade de outro de D. Sancheco II. Os sinais eram de lixo, mas cavei ainda assim, por serem profundos. E, de entre meia dúzia de alvos de lixo, lá saíram aquelas duas coisinhas. O resto era mesmo lixo!
E o calor começava a apertar. E eu que não havia reposto água na garrafa. Eram 4 e tal quando dei a coisa por terminada e regressei à sombrinha do lar.
Isto está a ficar fracote. A culpa é do escurinho que temos como Primeiro-Ministro. Perde o tempo a tentar ser branquela como as amigas e nós é que ficamos sem as moedas… Acho que ele devia de vestir algo que lhe desse um ar de cachopo imberbe para o Ferrinho começar a andar de volta dele…
E aqui vai mais uma foto…

Um abraço a todos e boas saídas!
