Abutres da República
Eis as voluntárias marionetes do esquadro e do compasso
Que no salão oculto lhes sussurra ao ouvido e define o passo
Alguns, elitistas com menos vergonha que um ladrão drogado
Enquanto outros nasceram nitidamente pelo buraco errado
Gentalha sem uma única hora de trabalho honesto e honrado
Que traz família e amigos para chupar a teta do povo espoliado
Mestres do crime que se prostituem a lobbies e outros vilões
Qual bando de escroques que vende o cu por meia dúzia de tostões
Sempre com as mesmas cantigas mansas e belas lengalengas
Prometem tudo para todos e um autocarro para as Berlengas
Ratazanas que vão para as televisões, com fingido ar solidário e sofredor
Negando que até o parasita encostado tem mais direitos que o trabalhador
Dão com uma mão e tiram com as duas, aqueles que até a respirar mentem
Com tudo ao dispor e mordomias, longe da miséria da qual nada sentem
E sobre o moribundo corpo da quase milenar nação reduzida a despojos
Banqueteiam-se descaradamente da carne, enquanto o povo lambe os ossos
Traidores à pátria, altivos, velhacos e de fé demente
Que, com o branquear da história se tornam heróis e boa gente
E a turba dá vivas aos gatunos e pedófilos que se passeiam por S. Bento
Corja de incendiários sorridentes mantém o país a arder em fogo lento
Que fazem do acre desespero do contribuinte um benefício
Enquanto lhes tecem inúmeros louvores pelo vão sacrifício
Nação em que a culpa dos poderosos se torna em pequenos pecados
Ao colo de advogados que fazem das vítimas eternos culpados
Lembro-me da saga cómica do engenheiro de intelecto manco
Que gostava de passear de braço dado com o amigo multibanco
De formação parida ao fim de semana, fez da arrogância ciência
Apregoando aos quatro ventos a sua elegante magnificência
Declarou-se bancarrota sem vergonha e total impunidade
E, como sempre, foi o povo que se lixou, é esta a verdade
Nação sem liderança inteligente, de justiça premente e gozada
É a história da nossa gente, eternamente descontente e saqueada
“Abutres da República”
António Eryx Santos
02:32/23-04-2023
Maiorga
Publicado na antologia
Entre o Sono e o Sonho – Volume XVI – Tomo I (A-J) da Chiado Books em 2024-10-07.
Páginas: 692 (Página 141)
ISBN: 978-989-37-8532-4
