Sinopse
2014. O último ano em que a Sarah Mei esteve aqui no CBES. Meses depois, a escola aguardava com ansiedade a sua presença.
Como é tradição, tinha que haver uma festa de despedida para a criançada.
Na reunião em que se atribuíram as tarefas de cada pai/mãe, lá me ia conseguindo esquivar das danças, teatros e outras coisas embaraçosas, até que, ainda hoje não consigo perceber como, aterrou no meu colo a parte da apresentação multimédia.
Aquilo deu trabalho como tudo, e foi literalmente até à última, apesar de ter começado semanas antes do evento, com algumas noites varadas pelo meio. Mas posso dizer que fiquei orgulhoso do que apresentei naquele écran!
Logo no princípio desse projecto, lembrei-me então de acrescentar algo mais. E se algumas personalidades da época dessem umas palavras de alento às crianças que iam iniciar o seu percurso escolar? Era um tiro no escuro, mas até podia resultar.
Enviei então emails, usando os endereços oficiais, para o Papa (não, não estou a brincar!), o Presidente da Républica (na altura, o Cavaco Silva. Recebi uma resposta oficial a acusar a recepção do email, mas o Cavaco não me passou cavaco nenhum) e para a Rádio Comercial (sou um ouvinte assíduo d’O Homem que Mordeu o Cão).
Expliquei o porquê do meu email, e se haveria possibilidade de atenderem ao meu pedido. Nicles! Até hoje, continuo a ouvir as moscas, enquanto espero.
Curiosamente, no dia seguinte ao envio dos emails, a rúbrica da Mixórdia de Temáticas, foi o “Chalupa Spotting”, o que me diz que pelo menos o pessoal da Rádio Comercial o leu.
Ora bem, segue-se o email que enviei para os estúdios da Rádio Comercial, ao cuidado do Nuno Markl e do Ricardo Araújo Pereira.
Caros elencos d’O Homem que Mordeu o Cão e Mixórdia de Temáticas:
Primeiro vamos à proverbial graxa. Como fiel ouvinte dos podcasts da Mixórdia de Temáticas e d’O Homem que Mordeu o Cão (as minhas colegas de trabalho só funcionam na base da pimbalhada das rádios locais), vinha deste modo meio torcido e disparatado solicitar a vossa colaboração num pequeno projecto. A minha pequenita vai terminar este ano a sua passagem pelo jardim-de-infância e adentrar nos escuros corredores de uma escola primária pela primeira vez. Havendo a festa de “fim-de-curso”, como é da praxe, tinha que calhar a alguém fundir os neurónios com a parte multimédia do evento. Posso dizer que me safei… Os outros progenitores vão cantar e dançar… Resumindo, fazer figura de Gummy Bears… Além da passagem de fotos da criançada durante o périplo deste último ano com as frases lamechas que as mães queriam que os filhotes dissessem (onde me incluo, apesar de não ser mãe…), ocorreu-me que poderia colocar também uns excertos de vídeo em que pessoas que fazem parte da actualidade e que farão parte da história como ícones (mais graxa!) em diversas áreas, lhes dirigem algumas palavras de alento. O dia será delas (as crianças) e o futuro também. Seria bom que um dia pudessem dizer: “Tás a ver aquele gabiru na televisão? Tenho um vídeo em que ele tá lá a dizer umas baboseiras e em que ele diz o meu nome. Agora tá um bocado cota…” ou qualquer coisa do género…
A “festa de fim-de-curso” é dia 11 de Julho…
Há coisa de uns dois ou três anos, enviei um texto para a Caderneta de Cromos e foi com muito orgulho que o ouvi à noite, depois de sacar o podcast. Foi uma história estranha da minha infância. Se esgravatarem nos vossos arquivos, ainda é capaz de aí estar a história do tanque de guerra feito com uma enorme caixa de cartão canelado.
“Porque não repetir o descaramento uma vez mais?”, ocorreu-me ontem à noite.
Tinha estado a ouvir os vossos podcasts mais antigos e tropecei num do Ricardo na Mixórdia, o da Experiência de quase morte. Está de génio e dei por mim a pensar: “Será que me atrevo?”. Claro que me atrevo! Meti mãos à obra e ressuscitei o Olímpio Miranda (desculpa, Ricardo!).
Agora o meu pedido propriamente dito.
Num dia em que os canídeos do Ricardo tiverem a gentileza de lhe devorar as resmas de papel, o livrinho, as canetas, lápis e tudo o que for computadores, e ele se encontre de bolsos vazios e sem trabalho para apresentar… Bem, talvez pudesse encarnar o personagem mais uma vez… :
Escrevi uma modesta rábula baseada no personagem por ele criado e só consigo visualizar na pele do Ricardo com aquele sotaque de redneck que ele tão bem imita. O dito saloio…
Visualmente, até imaginei que durante a entrevista, aparecia por trás deles o Nuno Markl fantasiado de marreco, de andar bamboleante, arrastando uma perna, de óculos e com aquele sorriso nervoso de quem foi apanhado a sair detrás de uma moita com uma Gina debaixo do braço. Uma espécie de emplastro, mas com mais dentes…
A festa é daqui a pouco mais de um mês e meio e, se porventura tirarem algum proveito do tempo que estou a usar para vos escrever, apenas peço que me enviem um clip de vídeo feito fora do ar em que mencionam o CBES (Centro de Bem Estar Social da Maiorga)(É em Alcobaça, onde um vilão do Ricardo comprou um terreno para começar a dominar o mundo), e agradecem à educadora o árduo trabalho efectuado (P.), à auxiliar (L.) e a todo o pessoal do CBES que aturaram e cuidaram dos nossos rebentos durante estes anos. Quanto às crianças… são só 20!!! Xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx.
E, já agora, uma mensagem esperançosa, do tipo: “Se não estudarem, acabam como nós!” Sejam vós próprios! Como sei que alguns de vós têm filhos, talvez tenham alguma sensibilidade para o meu pedido.
Se aceitarem a minha ideia, poderiam enviar o vídeo ou link do mesmo para o meu e-mail (xxx@xxx.com) ou, se o mesmo for muito volumoso em termos de megas, talvez um mísero DVD ou mesmo um daqueles CDs ranhosos da Mitsai para:
Xxx
Xxx
Xxx-Alcobaça
Se enviarem um CD ou DVD, podia vir embrulhado numa T-shirt ou duas da Rádio Comercial para não se danificar na viagem. Convinha que viessem assinadas pela vossa magnifica equipe, uma vez que é do conhecimento comum que as assinaturas em tecido multiplicam o poder de absorção de choques por 20. Se vos der um acesso de insanidade, a minha pequenita é um XS e eu um M. E a minha esposa é um S. :
Se entenderem passar a rábula em tempo de antena, pedia-vos que me mandassem um pequeno sms para o xxxxxxxxx antes de a mesma ir para o ar. As minhas colegas que se cuidem! Se já acham que tenho um parafuso a menos, vão ficar com a certeza de que faltam também algumas peças…
Agora, a rábula…
Olímpio Miranda – Ricardo Araújo Pereira
Entrevistador – Claro, Vasco Palmeirim
Ora então, hoje voltamos até à aldeia de Rio Tinto, onde uma dentadura postiça está a causar polémica. Tenho aqui comigo o senhor Olímpio Miranda, o coveiro da aldeia. Bom dia senhor Olímpio.
_Bom dia.
_Então conte lá aos ouvintes da Comercial o que é que se passou exactamente.
_Bem, isto foi assim. Há umas semanas atrás, a Dona Caetana pediu a dentadura emprestada à Dona Rozinda para ir ao casamento de um sobrinho que ela tem lá para a Inglaterra…
_Uma dentadura? Emprestada?
_Pois, é que a belha, além de ser maluca, também era desdentada. Minto. Ela ainda tinha uns 3 ou 4 dentes, mas arrancou-os à pedrada para conseguir pôr a placa da Dona Rozinda. Mas nós por cá somos todos muito desdentados e ela na queria fazer má figura no casamento e tinha gosto em levar uma cremalheira toda bonita. Ela andava sempre bem arranjadinha… E às vezes até se bestia e tudo. Uma senhora!
_Pois… Continue.
_E lá foi ela para as Inglaterras. Dizem que aquilo lá é muito giro, cheio de estrangeiros e imigrantes, com uma Rainha toda janota com uma touca de ouro e tudo… Bem, como ela foi uns dias antes do enfarda-brutos, deu-lhe um ataque de maluqueira e foi-se pôr a apanhar caracóis lá p’ra beira da estrada. Beio um daqueles tratores que têm uma roda grande em ferro à frente…
_Um cilindro?
_Pois, uma coisa dessas. Beio um cilindro e passou-lhe a roupa a ferro… A chatice é que ela tava lá dentro.
_Mas isso é horrível!
_Nem tanto. Nem tanto. A roupa ficou muito bem passada e a dentadura da Dona Rozinda não ficou nem riscada. Mas o diabo da belha ficou um bocado escangalhada! Beja só, conseguiram mandar a carcaça dela pelo correio! Biram-se foi é às aranhas para arranjar um enbelope do tamanho dela. E os selos que na gastaram! Hehehe…
_Uh, uh…
_Depois o Bitor, que é nosso chofer de serviço, foi buscar a belha aos correios da Sertã, mas perdeu-se no caminho. É que, sabe, o Bitor tem um olho de vidro e é cego do outro, pelo que ele às vezes perde-se um bocadinho. Mas temos muito gosto em que ele seja o chofer da caminete da escola daqui da aldeia. Mas como só cá há uma criança e ela mora lá mesmo ao lado, ele não tem muito trabalho… Continuando, quando foi o dia de meter a belha na coba, isto fez-se aqui um ajuntamento de pessoas que queriam ber a belha que tinha bindo das Inglaterras com o rabo cheio de selos. A Dona Rozinda, que não queria ficar sem a placa, pôs-se logo à coca. Esperta, a belha! Mal ela desconfiaba que o Abegão, o nosso cangalheiro barra talhante barra médico barra gigolo, também taba de olho no traça-mato da encarquilhada. Aliás, taba com os dois olhos, que ele na é c’mo Bitor. Quando chegou a bez da Dona Rozinda dar um chocho de despedida à Dona Caetana, afinfou-lhe um daqueles beijos em que até parece que a língua faz c’mo ponteiro das horas do relógio ali da torre da ingreja a ver se lhe sacaba a dentadura da boca. Mas o malandro do Abegão, depois de encher a belha com a bomba da bicicleta… [Pausa] Na sei é como é que ele encontrou o pipo da belha… [Pausa] Bem, depois de a encher, trocou as favas postiças por um naco de sabão macaco p’ra na se notar que a belha tinha as goelas bazias. Quando a Dona Rozinda se alebanta, bem a espumar muito da boca e começa tudo aos gritos. Uma coisa sem jeito nenhum… Aquilo parecia o Parlamento! E lá beio o Padre Fidel a correr, e conbencido que a Dona Rozinda taba possessa, desata a dar-lhe umas balentes bordoadas com um cajado nos costados. E rezaba enquanto estava entretido a desmanchar a Dona Rozinda e tudo! Só bisto! E o Abegão, que tinha a dentadura no bolso, atirou-a p’ró canteiro de uma campa que taba por ali, com medo que o Padre na ficasse muito cansado depois de aviar a Dona Rozinda e ainda quisesse falar com ele. Falar… Pois! Bem, beio então o Chalupa, o cãozeco da menina Floripes que… Olhe só, essa é a filha da Dona Caetana, um doce de pessoa, mas ficou mal comigo por eu lhe dizer que na podia enterrar o belho ó pé do mulher porque ali passabam os canos da água. [Pausa] E porque ele ainda tá bibo! Acho eu… Ele até já lá tá dentro da coba dele todo torcidinho. [Pausa] Quando o tempo acalmar e o bento na soprar muito, ele fica quieto e aí já o posso tapar com uma mantinha de terra… Mas a menina Floripes é muito arisca… [Pausa] E bolta e meia lá vai desempanando alguns moçoilos daqui da aldeia… e alguns belhinhos simpáticos com as costas doridas de carregarem as carteiras pesaditas… [Pausa] Ela alibia-lhes as carteiras… e outras maleitas… [Pausa] Hmm, hmm… [Desperto] Mas taba eu a dizer que beio o Chalupa e amarfanhou a maldita da dentadura… [Pausa] E agora, aqui na aldeia… é o único ser bibo com dentes… E ninguém lhos tira… [Pausa] É que ele agora morde!
_Mas nesta aldeia é tudo doido! Vocês deviam era de estar todos internados! Veja, veja! Até anda por aqui um burro com um pau espetado na barriga!
[Surpreso] _Onde? Onde? [Pausa] [Lentamente] Um pau espetado na barriga, na é?… [Pausa] [Lentamente] Se bocemessê na biesse p’raqui com essas calcinhas apertadas, isto na acontecia… Com que então um pau espetado na barriga… [Pausa] [Lentamente] Ó amigo, feche a boca que ainda lhe entra uma mosca lá p’ra dentro…
Pois, é nisto que dá ser pai…
Mesmo que o meu humilde pedido não seja aceite, recebam destes vossos fiéis seguidores um grande abraço e votos de que o vosso sucesso se mantenha por muitos e longos anos.
António “Eryx” Santos
P.S. Pensem bem na ideia do Nuno Markl fantasiado de marreco. Podiam organizar um evento em que ele desce pela Av. da Liberdade abaixo, arrastando uma perna e, já agora, com um arenque vivo entre os dentes…
